Fé que gera renda e transforma vidas em Alagoas

Comercialização de artigos religiosos representa crença no empreendedorismo e força genuína das mulheres que enxergaram em Deus o sustento para sua mesa

Por Lucas França e Valdete Calheiros - Repórteres / Bruno Martins: Revisão / Edilson Omena: Foto da capa | Redação Tribuna Hoje

“A fé move montanhas”. Esta expressão bíblica (Mateus 17:20) significa que uma fé genuína, mesmo que pequena como um grão de mostarda, é capaz de superar obstáculos aparentemente impossíveis, dificuldades e resistências. O versículo representa a crença no poder de Deus sobre o impossível, não necessariamente mover montanhas de forma literal, mas resolver questões intransponíveis.

Ao interpretar o versículo e com visão nos negócios, algumas empreendedoras alagoanas transformam suas vidas e a de inúmeros clientes com produtos religiosos.

É o caso de Jocielma dos Anjos Amorim, de 45 anos, que trabalhava em uma empresa privada na área financeira e de faturamento. O artesanato sempre fez parte da sua vida. No entanto, passou a ocupar um cômodo da casa com seus pensamentos e foco há 10 anos quando se desligou do emprego “formal” e passou a ficar em casa.

A mudança de rota aconteceu para seguir trabalhando, ajudar no sustento das despesas de casa, sem perder o contato mais direto com a família.

Como todo começo, nada foi muito fácil. Empreender na fé ainda era um caminho desconhecido, mas cheio de novas e felizes descobertas. Ela não lembra ao certo quanto investiu financeiramente. Há uma década, começou com o que tinha, improvisando e adquirindo poucos materiais. Colocou toda sua carga emocional na mão de obra e venceu. E melhor, continua vencendo a cada dia e escrevendo sua história que segue movendo montanhas.

No início, produzia apenas terços de rosas. Atualmente, faz terços de rosas moldadas a mão, terços convencionais, resinas personalizadas, santinhos moldados à mão em biscuit, capelinhas, oratórios e caixinhas de oração. De olho no futuro e com muita crença no seu “santo” trabalho, investiu em duas máquinas, uma de estampar canecas de porcelana personalizadas e outra de estampar tecidos.

Jocielma Amorim não possui ponto comercial propriamente dito. Trabalha no conforto do seu lar, em um cômodo. Nada mais simbolicamente singelo para quem produz a materialização da fé. Modesta, ela disse que o maquinário não é industrial, mas atende sua demanda, e que logo, logo, com a perseverança que apenas os de bom coração têm, ela terá que aumentar sua produção. Está profetizado, afirmou.

“Devido ao meu espaço pequeno, eu não tenho produção para pronta entrega. trabalho mais sob encomendas, até porque faço artigos personalizados, mas sempre tenho uma pequena quantidade pra suprir uma encomenda de última hora”.

A empreendedora “profissionalizou” sua fé ao procurar ajuda no Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Assistida pelos técnicos e com consultoria especializada, ela aprendeu como gerenciar seus negócios, com foco na produção e atendimento aos clientes. Desde então, o que já era bom, ficou melhor. Bastou a vontade de empreender se encontrar com a técnica.

Jocielma dos Anjos carrega no sobrenome a maior inspiração para empreender em artigos religiosos.

Peças produzidas por Jocielma dos Anjos (Foto: Edilson Omena)


“TUDO QUE A GENTE ACREDITA

COM FÉ, A GENTE CONSEGUE”

“Hoje eu posso dizer que vivo do ateliê e dos terços personalizados”. A frase de Mônica Cordeiro, de 49 anos, resume a transformação vivida por ela a partir do empreendedorismo religioso. Moradora do bairro Cidade Universitária, em Maceió, a empreendedora encontrou na fé e no trabalho manual uma fonte de renda, independência e realização pessoal.

Ela contou que o negócio, que começou como complemento financeiro, se tornou uma atividade capaz de contribuir de forma decisiva para a renda da família. “Me senti feliz por poder contribuir com as despesas da minha casa fazendo aquilo que eu gosto. Isso me trouxe algo muito bom espiritualmente também”, relatou.

O crescimento do negócio permitiu conquistas concretas. “Essa casa onde hoje funciona o ateliê é fruto do nosso trabalho. Foi comprada para receber clientes, fazer encomendas e ampliar nossa produção”, afirmou.

Empreendedora Mônica Cordeiro em seu ateliê (Foto: William Barros)

Além das vestes para Primeira Eucaristia, Mônica produz terços personalizados, atividade que, segundo ela, também carrega um propósito espiritual. “Cada terço que faço é rezado. Peço que Nossa Senhora entre nos lares das pessoas que recebem meu trabalho. Uma coisa puxou a outra e hoje vivo disso”, declarou.

Além disso, a empreendedora conta que o negócio a mantém longe de uma grande depressão. “Eu estou me sentindo sozinha, minhas filhas cresceram, formaram suas famílias e eu fiquei em casa, meu esposo sai para trabalhar e eu fico sozinha, estava me sentindo triste, inútil... comecei a fazer terapia inclusive, foi aí que vi que precisaria de algo para mudar minha realidade, precisava me sentir útil e capaz. Foi quando surgiu a ideia de fazer os terços personalizados”.

Confira a história no áudio abaixo e no vídeo ao final da reportagem.

CATOLICISMO SEGUE MAIORIA EM ALAGOAS

  • Dados preliminares do Censo 2022 do IBGE mostram que Alagoas continua entre os estados mais católicos do país, com 64,16% da população de 10 anos ou mais se declarando católica, embora o percentual tenha caído em relação a 2010. Apesar da redução, o catolicismo segue como principal religião no estado. Em contrapartida, os evangélicos ampliaram presença e hoje representam 22,88% da população alagoana, consolidando o avanço do segmento.
  • Também cresceu o número de pessoas sem religião, que já soma 9,31% dos moradores, refletindo mudanças no perfil religioso e novas formas de vivenciar a espiritualidade. O levantamento aponta ainda maior diversidade religiosa, com destaque para o crescimento das religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, que quase quintuplicaram desde o último censo. Espíritas representam 0,65% da população e outras religiosidades somam 2,31%.

NEGÓCIOS DO SEGMENTO 

TAMBÉM CRESCEM NO INTERIOR

História parecida é a de Alícia Padilha, de Paulo Jacinto, na Zona da Mata alagoana, graduada em licenciatura em História e estudante de Direito, que transformou a devoção e a habilidade artesanal em negócio e envia suas produções para diversas regiões do país.

“Sempre fui católica e apaixonada por trabalhos manuais. Na pandemia, com mais tempo livre, comecei a produzir terços personalizados e isso virou fonte de renda”, contou.

O investimento inicial foi modesto, cerca de R$ 100 em materiais, mas bastou para dar início ao empreendimento. “Postei o primeiro terço no Instagram e começaram a surgir encomendas. Consegui unir algo que amo fazer com geração de renda”, lembrou.

Hoje, Alícia produz terços, chaveiros religiosos e modelos personalizados, como o terço de noiva, que pode custar em média R$ 150. Já as peças mais acessíveis saem por cerca de R$ 28. “Aprendi sozinha, vendo vídeos no YouTube e aperfeiçoando com a prática. Cada cliente quer uma peça única, então tudo é feito sob encomenda”, explicou.


Terços produzidos por Alícia Padilha (Fotos: Cortesia ao Tribuna Hoje)


As histórias de Jocielma, Mônica e Alícia fazem parte de um movimento em expansão conhecido como empreendedorismo religioso, segmento que cresce em Alagoas e em outras regiões do país ao unir fé, criatividade e negócios.

A prática se caracteriza pela produção e comercialização de itens ligados à religiosidade, como artigos devocionais, vestimentas, livros, música e objetos personalizados, mas também por iniciativas guiadas por valores como solidariedade, propósito e economia colaborativa.

Especialistas apontam que o setor vai além do comércio de artigos religiosos e inclui modelos baseados na chamada economia de comunhão, em que o lucro divide espaço com princípios éticos e impacto social.

Nesse cenário, a fé aparece não apenas como inspiração, mas como diferencial de mercado.

Para muitas mulheres, o segmento também representa autonomia financeira. No caso de Mônica, o empreendedorismo trouxe mais que renda. “Antes eu me sentia um pouco inútil por não trabalhar fora. Hoje me sinto realizada, contribuindo com minha casa e vivendo do que amo fazer”, resumiu.

Quem quiser conhecer mais o trabalho das empreendedoras pode acessar na internet os perfis profissionais delas: Mônica Cordeiro @ateliefloresdemaria, Alícia Padilha @santotercopersonalizado e Jocielma dos Anjos @jocielmadosanjos.

ABERTURA DE EMPRESAS NO ESTADO

Dados da Juceal (Junta Comercial do Estado de Alagoas) mostram que 2025 registrou um recorde histórico na abertura de empresas, com 44.386 novos negócios formalizados no estado. O número superou a marca anterior, registrada em 2021, e reflete o avanço do empreendedorismo, impulsionado principalmente pelos MEIs (microempreendedores individuais), que representam a maior parte das novas formalizações.

Outro destaque foi a agilidade no processo de abertura de empresas, que caiu para uma média de 11 horas e 32 minutos, facilitando o ingresso de novos empreendedores no mercado. Apesar do crescimento geral, os relatórios da Juceal não detalham quantos desses negócios são voltados especificamente ao segmento de artigos religiosos. Já os dados consolidados de 2026 ainda não foram fechados, mas a expectativa é de continuidade no ritmo de expansão do setor empresarial em Alagoas.

MOVIMENTO FOMENTA 

ECONOMIA EM TODA ALAGOAS

O economista Franscisco Rosário antecipa um viés entre o empreendedorismo religioso e o turismo religioso, fenômeno relativamente novo, visto que tem se movimentado fortemente nos últimos 20 anos. As festas religiosas que acontecem em toda Alagoas fomentam esse empreendedorismo.

A analista técnica e coordenadora do Projeto Sebrae Delas em Alagoas, Érica Pereira, explicou que, geralmente, os empreendedores procuram o Sebrae em busca de orientação para estruturar e fortalecer seus negócios. As principais demandas estão relacionadas à formalização, gestão financeira, precificação, estratégias de vendas, marketing e acesso ao mercado.

“Independentemente do segmento, há uma busca crescente por capacitação, com foco em melhorar resultados e tornar o negócio mais sustentável”, detalhou.

O Sebrae, acrescentou, realiza atendimentos de forma transversal, ou seja, por segmento econômico mais amplo, e não necessariamente por nichos específicos como o de produtos religiosos.

“Por isso, não trabalhamos com um quantitativo segmentado desse tipo de atividade, mas esse público está inserido nas ações gerais de comércio e serviços atendidas pela instituição”.

O atendimento do Sebrae é bastante capilarizado, alcançando tanto a capital quanto o interior do estado.

Érica Pereira explicou que o Sebrae observa que o empreendedorismo está presente em todas as regiões, com forte atuação também no interior, onde muitos negócios estão ligados à cultura, tradição e identidade locais.


Analista técnica e coordenadora do Projeto Sebrae Delas em Alagoas, Érica Pereira (Foto: Assessoria)


Quanto ao perfil dos empreendedores atendidos, ele é bastante diverso. O Sebrae realiza atendimentos desde jovens que estão iniciando suas atividades até pessoas mais experientes, que encontram no empreendedorismo uma oportunidade de geração de renda ou reinserção produtiva.

Entre os empreendedores há, conforme a analista técnica do Sebrae, uma presença significativa tanto de homens quanto de mulheres. “No entanto, de forma geral, temos observado um crescimento consistente do empreendedorismo feminino, com cada vez mais mulheres à frente de seus próprios negócios”.

Érica Pereira explicou que o empreendedorismo tem se expandido em diferentes segmentos, impulsionado pela busca por autonomia financeira e novas oportunidades de renda.

“Nichos específicos, como o de produtos religiosos, fazem parte desse movimento mais amplo, especialmente quando associados à cultura, fé e tradição. É bastante comum que muitos empreendedores iniciem suas atividades após experiências no mercado de trabalho formal ou como alternativa diante de mudanças profissionais. O empreendedorismo, nesse contexto, surge tanto por oportunidade quanto por necessidade”, frisou.

Segundo ela, muitos negócios apresentam variações ao longo do ano, especialmente em datas específicas que impulsionam as vendas. No entanto, a maioria dos empreendedores, completou, busca estratégias para manter o fluxo de vendas de forma contínua, diversificando produtos e canais de comercialização.

Ainda conforme o Sebrae, grande parte dos pequenos negócios inicia de forma individual ou familiar, especialmente no começo da atividade. Com o crescimento, alguns empreendedores passam a estruturar equipes ou estabelecer parcerias, conforme a evolução do negócio.